segunda-feira, 24 de março de 2008
Fuhrer!
Dedos longos e gordos, unhas bastante curtas e asseadas, pele macia, porém nem tanto, sem anéis, com alguns pêlos louros, muito branca fazendo assim saltar veias com sangue esverdeado palpitando quando está com raiva. Ininterruptamente segurando o cinturão a fim de mostrar sua ascendência, fazem um ângulo de 90 graus com o seu peito batendo continência ao partido nacional-socialista, que vangloriam o preconceito, o racismo e a inferioridade semita.
A parte terminal dos membros superiores do homem que com um singelo gesto é capaz de dizimar cidadãos, começar uma guerra, comandar tropas, assinar acordos de paz e ao mesmo tempo traí-los. Codificam verdadeiras intenções, que só pré-destinados sabem interpretar, folheiam livros mas não armazenam na cabeça.
A mesma mão que persuadiu várias outras, perseguiu inocentes e espalhou maldades não quis aceitar a derrota e o deboche dos que venceram, foi o órgão que apertou o gatilho e cometeu o suicídio.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Hablas Castellano?
“Hablas castellano?” Todos do consultório médico entreolharam-se atônitos procurando uma explicação para a origem daquele senhor de cabelos brancos, aparentando não menos que 70 anos, que mal conseguia equilibrar-se, e ainda tossia brutalmente. Brincava com as palavras, ria de suas gafes, e caçoava os pacientes que apertavam os olhos para alcançar um ângulo maior de visão. Era um tropeço desconexo, um salto de sílabas, gaguejava hablando español, e de repente falou:
“- Ô, dotô to ruim das vistas!”
O velinho pseudo-espanhol era mais feliz que a criança ao meu lado, mais feliz que o milionário ao meu lado, mais feliz do que eu.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Clarividêncio
Trabalhei feito um condenado, chego a conclusão de que sou um condenado. Todos os dias assim, de segunda à segunda, comendo pouco, bebendo mal, sem mulher, sem frevo, sem família.
Eu andava por aquelas obras e via a tristeza dos cativos, olhos fundos e desnutridos. Condição sustentável? Para muitos era, afinal, quem desafiaria o homem de preto? A cidade de Brasília estava pronta para a inauguração, os prédios de um tal de Niemeyer dava um contraste moderno. Ele projetou, nós construímos e tínhamos certo orgulho disso.
Antes do pôr do sol, o tal presidente fez um discurso sobre o palanque, o cabra vomitava conteúdo, falava cada palavra difícil que só a gota. “Eu construí, eu realizei.” Prometia, jurava e ainda ironicamente zombava de nós. Ele declarava o futuro e nós declarávamos a fome. Cadê o presente? Vivíamos um sepultamento sem cadáver, e ele quem levou a fama.