segunda-feira, 10 de março de 2008

Clarividêncio

Trabalhei feito um condenado, chego a conclusão de que sou um condenado. Todos os dias assim, de segunda à segunda, comendo pouco, bebendo mal, sem mulher, sem frevo, sem família.

Eu andava por aquelas obras e via a tristeza dos cativos, olhos fundos e desnutridos. Condição sustentável? Para muitos era, afinal, quem desafiaria o homem de preto? A cidade de Brasília estava pronta para a inauguração, os prédios de um tal de Niemeyer dava um contraste moderno. Ele projetou, nós construímos e tínhamos certo orgulho disso.

Antes do pôr do sol, o tal presidente fez um discurso sobre o palanque, o cabra vomitava conteúdo, falava cada palavra difícil que só a gota. “Eu construí, eu realizei.” Prometia, jurava e ainda ironicamente zombava de nós. Ele declarava o futuro e nós declarávamos a fome. Cadê o presente? Vivíamos um sepultamento sem cadáver, e ele quem levou a fama.

No final das contas, somos todos iguais em desgraça.


2 comentários:

_-_Lucas Steckelberg_-_ disse...

"Vivemos um sepultamento sem cadáver"

Adorei isso!! hehe

de volta a ativa entao !?



;*

a Freire disse...

“Eu construí, eu realizei.”

Queria era dizer ao tal do presidentE quE a cidadE ondE ele vivE é o berço ondE nasci, o berço quE o meu vô construíu...